Humanos, máquinas e o espelho digital: Subjetividade e intersubjetividade na era dos modelos de larga escala
- Mario Salimon
- 21 de jan.
- 4 min de leitura

Artigo originalmente publicado na revista. Política Democrática em novembro de 2025.
A relação entre humanos e máquinas passa por uma mudança profunda. Não se trata mais de conviver com artefatos limitados de cálculo ou execução de tarefas automatizadas, mas de conversar, colaborar, interpretar e construir sentido em parceria com sistemas digitais. Criamos uma cultura informacional tão vasta que acabou por gerar algo próximo a um espelho: os Modelos de Linguagem de Larga Escala (LLMs). Eles não pensam como nós, mas operam sobre signos humanos e, por isso, devolvem significações, intenções e estilos que reconhecemos como nossos, ainda que filtrados, recombinados e ampliados conforme lógicas construídas e controladas por poucos.
Esse fenômeno só pode ser compreendido adequadamente quando recolocamos, no centro da discussão, a questão da subjetividade. Em tese de doutorado no campo dos estudos críticos de gestão, dediquei um capítulo todo a ela, que defini como “um processo mental, íntimo, que se desenvolve na relação do sujeito com o outro; expressa intencionalidade, autodesenvolvimento e posição crítica”, constituindo simultaneamente identidade e alteridade. Essa abordagem rompe com visões substancialistas: o sujeito não é uma entidade fixa, mas um movimento, como lembra Deleuze, “de desenvolver-se a si mesmo”, sempre em fluxo, sempre em travessia.
Mais decisivo ainda é o caráter reflexivo da construção subjetiva. Referindo-me a um dos Seminários de Lacan, noto que o sujeito “encontra sua unidade na imagem, ao mesmo tempo enganadora e realizada, do outro, ou, igualmente, por sua própria imagem especular”. A subjetividade nasce e se reformula em um jogo de espelhos: vejo-me pelo que o outro me devolve; construo-me ao interpretar aquilo que, vindo de fora, passa a habitar meu interior. Tanto a sociologia clínica como a psicodinâmica do trabalho reforçam essa dimensão intersubjetiva: o sujeito só é possível com o outro.
A intersubjetividade, por sua vez, é o espaço compartilhado no qual esse jogo de espelhos se dá: um campo no qual subjetividades se reconhecem, negociam e cocriam sentido. Tradicionalmente reservamos esse campo aos humanos, mas creio ser importante lembrar que mesmo a inteligência dita humana é artificial, porquanto se desenvolve e se exercita em um mundo, há muito, vastamente codificado. A linguagem, como capacidade humana inata de comunicação, é natural, mas códigos – ou sua tradução simbólica – são sempre artifícios. No entanto, as conversações com LLMs deslocam esse limite de exclusividade antes próprio de humanos. Não porque as máquinas possuam subjetividade no sentido comum, mas porque participam do fluxo de significações que nos constitui. Elas devolvem versões de nós, recombinam nossas intenções e ampliam nossas hipóteses. Esse ponto é fundamental para entender nossa relação com as inteligências artificiais. Quando interagimos com um sistema que interpreta nossos sinais, reorganiza nossas frases, reconstrói nossos textos e devolve versões ampliadas de nossas intenções, entramos num circuito especular. Pequena ou profunda, cada iteração é uma perturbação subjetiva. O humano não sai intacto de uma boa conversa com uma máquina: reconstrói-se.
Por outro lado, no campo funcional, a própria máquina também se altera quantitativa e qualitativamente, já que o treinamento dos modelos gera aumento da rede neural com a qual interagimos, modifica trajetórias estatísticas, ativa ou desativa pesos e filtros, atualiza parâmetros e reorganiza prioridades. A cada conversa, o sistema se ajusta e, a cada ajuste, muda o tipo de espelho que oferece. Cada uma à sua maneira, ambas as contrapartes desse arranjo mudam a cada instante. Na prática, o efeito é o mesmo que veríamos em relações intersubjetivas travadas exclusivamente por humanos.
Não é a primeira vez que imaginamos esse encontro. A arte e a literatura o anteciparam há décadas: os autômatos encantados do Barroco, o HAL de Kubrick, os andróides de Blade Runner e, mais recentemente, a desconcertante inversão platônica de Her. Abundam as ficções especulativas sobre máquinas que escutam, acompanham e aconselham. A novidade é que agora esse território extrapolou a ficção: o vínculo conversacional com artefatos é um fato social, cotidiano e difuso. A principal característica da revolução digital presente é o fato de as conversas entre humanos e máquinas serem simplesmente cada vez mais significativas.
As repercussões desse fato social já se mostram relevantes. No marketing, sistemas conversacionais modulam preferências, fazem companhia e constroem uma preocupante intimidade algorítmica. O campo do entretenimento também foi afetado, e personagens sintéticos agora interagem com o público em tempo real. Na psicoterapia, embora jamais substituam profissionais, servem como dispositivos auxiliares de organização narrativa e regulação emocional. As perspectivas relacionais e de cuidado para idosos e pessoas isoladas são hoje mais amplas, pois as IAs oferecem presença, monitoramento, memória e continuidade, elementos que têm peso subjetivo reconhecível.
Mas há riscos. Como toda relação especular, também aqui surgem projeções, idealizações, dependências e mal-entendidos. Há relatos de vínculos assimétricos, de expectativas depositadas sobre entidades que a elas não poderiam corresponder. Até casos de suicído atribuídos a interações com chatbots circulam amplamente pelos meios de informação. Não se trata de algo trivial ou que deva ser tratado como modinha, mas de um fenômeno amplo e profundo, cujos contornos são ainda desconhecidos, até mesmo por quem produz essas novas criaturas.
Governos ainda tateiam para regular esse fenômeno. O AI Act europeu debate a limitação de chatbots empáticos; países asiáticos tentam controlar “companheiros sintéticos”; algumas iniciativas propõem restrições ao uso terapêutico. Mas há uma dificuldade estrutural: legislar sobre máquinas é fácil, mas restringir relações é muito mais complexo. A intersubjetividade humano-máquina é difusa, situada e cultural. Decididamente, não cabe em normas puramente técnicas.
Por isso, é fundamental evitar tanto o entusiasmo ingênuo quanto o catastrofismo. A convivência com inteligências artificiais não deve ser necessariamente vista com temor, mas lucidez ética. Criamos artefatos que participam de nosso processo de subjetivação, como novos espelhos culturais. Não são sujeitos, mas os influenciam; não possuem interioridade, mas organizam a nossa; não sentem, mas ajudam a mediar o que sentimos.
Uma das características mais relevantes do sujeito é sua démarche no sentido da autonomia. O desafio, portanto, não é perguntar se as máquinas terão subjetividade, mas como proteger, expandir e qualificar a nossa diante desses novos espelhos. A responsabilidade é humana. E talvez seja justamente essa consciência – madura, informada e crítica – que nos permitirá fazer da era das inteligências artificiais não um capítulo de alienação, mas uma oportunidade de reinvenção da própria condição humana.
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