TELETRABALHO, TELECOOPERAÇÃO E OUTRAS FORMAS DE FLEXIBILIZAR E OXIGENAR RELAÇÕES PROFISSIONAIS – publicado originalmente em 2003

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Originalmente publicado em 2003 na newsletter Aminoácidos, da AED

O teletrabalho é uma dentre várias formas encontradas por pessoas e organizações na tentativa de flexibilizar relações profissionais*. Cresce porque se beneficia fortemente de tendências mundiais de redução de custos nas organizações e capilarização de redes de informação e comunicação. Estima-se que, em âmbito mundial,  130 milhões de pessoas realizarão teletrabalho em 2003 (Gartner Group). Diversos estudos levam a crer que essas pessoas trabalharão mais, serão mais eficientes e pouparão o meio ambiente. Mas terão que adaptar suas mentes, suas casas e também a vida familiar.

A definição mais abrangente que se encontra no mercado provém do European Telework Online – ETO o maior e mais visitado site europeu relacionado ao tema:

“O teletrabalho ocorre quando o uso de tecnologias de informação e comunicação (TICs) permite que um trabalho seja feito a distância do local em que seus resultados são necessários ou no qual ele seria convencionalmente feito.”

Como se pode ver, teletrabalho é algo mais do que “poder trabalhar em casa” . As TICs permitem computação ubíqua e obrigam gestores a mudar completamente sua forma de planejar, conduzir e mensurar trabalho. As diferentes arquiteturas aplicadas às organizações tradicionais perdem função quando  pessoas, objetos, fluxos e processos viram código binário.

Toda  noção de “supervisão” vem abaixo porque há muita horizontalidade na apropriação dos sistemas de informação gerencial. Não basta ao chefe saber o que deve ser feito. Ele deve também aprender a usar as ferramentas dos subalternos para  estruturar qualquer modelo de acompanhamento. Ao fazê-lo, acaba entregando um pouco do controle sobre o processo aos demais.

Na verdade, algo de muito positivo ocorre: a organização se vê obrigada a melhorar seus níveis de cooperação. O teletrabalho parece dar muito mais resultado em organizações bem enredadas, em que se desenvolveram boas técnicas de telecooperação. Esta se define pelo uso de TICs  – no caso listas de discussão, chats e grupos de email – para aumentar o acesso à informação e fomentar processos democráticos e duradouros de comunicação.

A telecooperação, diferentemente do teletrabalho,  não implica necessariamente compartilhamento de institucionalidades ou alguma relação trabalhista. Normalmente, começa por um grupo aberto de discussão, que pode se desenvolver como tal ou optar por um fechamento que venha resultar em algum nível de institucionalização. Mas pode ser uma boa ferramenta para projetos-piloto de abertura de determinada organização para o teletrabalho. Podem-se criar hot groupsde telecooperação em projetos pontuais, cujos resultados vão sendo medidos em termos de consistência, eficiência, pontualidade etc. Aqueles que funcionarem bem nesses grupos terão maiores chances de sucesso como teletrabalhadore

QUANTOS SÃO TELETRABALHADORES?

Gil Gordon é perito internacional em teletrabalho e costuma fazer piada dizendo que “há mais gente estudando o tema do que teletrabalhadores”. Ele exagera porque, ainda que o número dos praticantes esteja em ascenção, as iniciativas são na maior parte do mundo ainda muito tímidas: os 130 milhões de pessoas estimados pelo Gartner Group são como 2% da população do planeta.

Mesmo nos EUA, onde se encontram os maiores percentuais de teletrabalhadores, fala-se em algo como 21% da força trabalhando fora  do ambiente corporativo. Na Finlândia, um dos expoentes europeus, chegam a 17%. O Brasil está bem abaixo disso. O especialista brasileiro Álvaro Mello  estima em 3 milhões o número de brasileiros envolvidos com teletrabalho em 2003. Menos que 2% da população Mas as pesquisas são geralmente pouco abrangentes e os números, discrepantes..

Fatores como a expansão da oferta de serviços internet de banda larga e o barateamento dos componentes eletrônicos tendem a favorecer um rápido crescimento desses números. O efeito demonstrativo dos casos pioneiros bem sucedidos também deverá  ser impactante, já que 89 das 100 maiores empresas dos EUA, bem como nomes de peso no mercado brasileiro, oferecem algum tipo de teletrabalho em seu ról de possibilidades.

TENDÊNCIAS

O tema “teletrabalho” não é novo. Pelo que se apura, o termo foi primeiramente usado em 1973 pelo norte-americano Jack Nilles, que propôs o uso da tecnologia para se evitar o excessivo deselocamento de empregados. Ele liderou um movimento que teve seu grande momento conceitual na década de 80, e que ganha adeptos aos milhões desde o início da popularização do computador pessoal. Uma análise de diversas pesquisas realizadas em anos recentes revela algumas tendências.

AS PESSOAS TRABALHARIAM MAIS

Pesquisa realizada pela  International Telework Association and Council, financiada pela AT&T, mostrou que teletrabalhadores entregam a seus contratantes pelo menos uma hora por dia ou seis semanas anuais a mais. 72% dos pesquisados acreditam produzir mais em casa do que no escritório.

O TRABALHO SERIA MAIS EFICIENTE

A norte-americana JD Edwards tem apostado pesadamente em teletrabalho. Para eles, essa modalidade permite trazer para sua equipe candidatos situados fora das fronteiras geográficas da empresa.  “Pessoas fazem a diferença e é essa diferença que garante novas idéias na mesa” afirmam no web site da renomada empresa produtora de software. Uma pesquisa que fizeram em 1999 mostrou que os funcionários que teletrabalham rendem de 20 a 25% mais do que os demais. Na AmEx, o rendimento excedente dos teletrabalhadores foi de 45%  sobre os situados nos escritórios da empresa.

ORGANIZAÇÕES  E TRABALHADORES REDUZIRIAM SEUS CUSTOS

O potencial de redução de custos com teletrabalho é muito grande e interessa a todos os setores envolvidos. Para o contratante, há economia em espaço físico, telefonia, material de consumo. O trabalhador ganha com a flexibilização de seus horários, economiza com transportes, alimentação e vestuário. Nos casos de contratos por produto, o trabalhador pode ampliar a oferta de serviços até o limite de sua eficiência. Aos governos interessa a diminuição de consumo de energia e a menor pressão sobre o meio ambiente e os aparelhos urbanos. Um exemplo claro do impacto do deslocamentos do trabalhador sobre o fator tempo é o fato de que 40 minutos diários de transporte equivalem a oito semanas anuais de trabalho.

PESSOAS COM NECESSIDADES ESPECIAIS TERIAM MAIS CHANCES NO MERCADO

O teletrabalho permite a inclusão de trabalhadores com necessidades especiais, geralmente isolados  por fatores relacionados ao deslocamento ou mesmo por questões psicológicas.

MULHERES E HOMENS PODERIAM CONCILIAR TRABALHO COM A VIDA FAMILIAR

A mulher tem sido historicamente obrigada a negligenciar ou a família ou a carreira profissional. Com a flexibilização das relações de trabalho e as TICs, seria possível conciliar vida familiar e carreira profissional. Na verdade, o impacto seria sobre os dois gêneros porque quando o homem opta pelo teletrabalho, vê-se colocado no ambiente familiar em situações que demandam dele pelo menos um pouco de participação. As discussões sobre igualdade teriam  aí terreno fertil para instalação.

NEM TUDO SÃO FLORES

O ENCONTRO DE DOIS MUNDOS

Em  Casa- pequena história de uma idéia,  Witold Rybczynski trata com clareza a transição da casa feudal, pública pra aquela particular de família. A casa feudal era para o dono  habitação e espaço de trabalho. Os pratos e talheres eram postos de lado para dar lugar às ferramentas do artesão. Os móveis  – e daí vem o nome –  eram desmontáveis e circulavam conforme o uso que se fazia do cômodo. Não havia privacidade pois conviviam ali o patrão, os empregados, os clientes e um conjunto de agregados que, não raramente, chega a trinta pessoas.

Foi nos Países Baixos, no século 17, que nasceu a idéia de domesticidade. Enquanto os homens se ocupavam de negócios citadinos, mercantilistas e financeiros, a casa burguesa passava a ser domínio feminino, voltada para o conforto dos moradores, a criação do filhos, a uma vida privada. Esse modelo de vida, à época restrito a um grupo muito específico de pessoas, é guardadas as pecualiridades, aquele que bem conhecemos hoje. Ainda que a mulher trabalhe e conduza a vida financeira da família, é dela que se espera normalmente a organização da casa e a harmonização do lar.

Agora vêm homens e mulheres de volta para a casa com equipamentos, diretrizes e protocolos do mundo do trabalho. O mundo familiar terá que se adaptar ao do trabalho ou vice-versa? Haverá conciliação fácil?  Quem regulamentará esse relacionamento?

MUDANÇA DE MENTALIDADE

Há ainda o perigo do isolamento, da desarticulação. Sabemos que há tecnologia para resolver esses problemas, mas há que se vencer uma barreira mais difícil: outra vez a necessária mudança de mentalidade, já que o isolamento ocorre muitas vezes por opção do indivíduo mesmo em espaços coletivos físicos de trabalho.

Outra dificuldade tem a ver com a capacidade que a maior parte das organizações ainda não tem de planejar e levar a termo, com eficiência, suas atividades. A telecooperação exige um alto grau de focalização e compromisso com o sucesso da missão. Será necessário promover grandes mudanças na cultura de trabalho, uma verdadeira mudança de mentalidade em relação ao trabalho.

Chefes terão que abrir suas cabeças, empregados terão que fazê-lo igualmente. Imaginem o que não terá que se fazer nos ambientes governamentais de trabalho para convencer colegas e chefes que o teletrabalhador eficiente não é mais folgado que o funcionário que fica jogando paciência e tomando cafezinho no gabinete?

Entretanto, não se pode mais esperar. As mudanças necessárias favorecerão mesmo aquelas organizações que optarem por não oferecer muita flexibilidade. Se o assunto “produtividade” vier à tona e for discutido, teremos muitas mudanças positivas. O mesmo podemos dizer sobre “cooperação”, “mensuração”, “conciliação dos âmbitos familiar e profissional” e  daí por diante. A mudança de mentalidade deve começar imediatamente. Não é preciso esperar pela próxima segunda-feira,  já que não existe “dia inútil” no vocabulário do teletrabalhador.

*Outros tipos de trabalho flexível: horário flexível, semana comprimida, compartilhamento    detarefas, tempo parcial

Sites pesquisados:

Context Institute – www.context.org

Canadian Telework Association – www.ivc.ca/disability.html

Sociedade da Informação no Brasil – www.socinfo.org.br

Brasil Teletrabalho – www.teletrabalho.info

Ministério do Trabalho – www.mte.gov.br

JD Edwards Industry solutions – www.jdedwards.com

European telework Online – www.eto.org.uk/index.htm

International Labour Organization – www.ilo.org

Photo by infocux Technologies on Flickr and used here with Creative Commons license.

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