Tecnologia e desenvolvimento. Entrevista concedida ao portal do Voluntário em 2002

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Entrevista originalmente publicada no Portal do Voluntário em 2002

 

Há décadas a evolução das tecnologias de 
comunicação e informação tem sido muito
 rápida e muito radical. Tanto que os
 equipamentos e sistemas de informática
 costumam ficar obsoletos em prazos muito
 curtos. Isso está mudando as pessoas, as
 organizações sociais, as empresas, os
 governos. Precisamos no Brasil, onde a 
conectividade é cerceada pela política de
telecomunicações, apressar o passo e 
encarar de frente estas mudanças,
 especialmente no Terceiro Setor, no esforço por um desenvolvimento sustentável e democrático.

Para falar sobre estas novas tecnologias, seus impactos e desafios, o Portal do Voluntário ouviu em Brasília o jornalista e músico Mario Salimon, que dirige a empresa Heliocêntrica TIPG e representa a área de Tecnologia da Comunicação e Informação na Rede de Criação da Agência de Educação para o Desenvolvimento.

Em anos recentes, ele trabalhou como oficial de informação no Unicef e consultor para organizações diversas, dentre as quais se destacam o PNUDC, PNUD, Unesco, Serpro e Agência de Educação para o Desenvolvimento. Foi por cinco anos coordenador do Núcleo de Comunicação do Conselho da Comunidade Solidária.

Portal – Fala-se muito em tecnologias de comunicação e informações, as famosas TICs. É difícil acompanhar o que acontece, seja por causa do vocabulário em inglês seja porque os avanços são rápidos e numerosos. Que onda é essa?

Mário Salimon – O computador em casa – ou na pequena corporação – seria o primeiro marco relevante. O ser humano é notável em sua busca por formas de facilitar a vida. Sempre deu um jeito de multiplicar sua força, de ir mais longe com o mesmo esforço. A computação pessoal seria o exemplo mais eloqüente dessa capacidade.

Nos anos oitenta, houve uma conjunção de fatores econômicos e tecnológicos positivos que levaram as indústrias a investir pesadamente na informatização do cidadão comum. Uma revista chegou a estampar a foto de um computador sendo carregado dentro de um carrinho de compras. Uma imagem forte, cheia de significados.
Um computador em casa joga abaixo paradigmas milenares de educação, entretenimento, relacionamento social e comercial. Cidadãos comuns agora têm em casa um instrumento de poder. Tudo que puder ser convertido em código binário caberá, teoricamente, nessa caixa de plástico.
 Um segundo marco foi a conexão dessas pessoas e máquinas através da grande rede mundial, a famosa WWW. Isso ocorreu em meados da década de 90. Veja que todo o capital intelectual acumulado em cada ponto pode ser potencialmente compartilhado rapidamente, a um custo muito baixo, resultando em capital social, que é um fator crucial para o desenvolvimento.
 Um terceiro marco importante tem a ver com a convergência dos vários meios (televisão, rádio e jornalismo) para a internet, que nasceu e tende a ser predominantemente bilateral, o que é muito relevante se formos discutir democratização da sociedade. Os impactos da convergência nos processos de educação, governo e entretenimento trarão certamente muitas mudanças na vida das pessoas. Tenho a impressão que esse fator pontuará definitivamente a diferença entre informação e comunicação.

Portal – Qual é o impacto destas tecnologias nas empresas, governos e organizações sociais?

Mário Salimon – Na minha opinião, o que há de mais relevante é a preponderância dos modelos computacionais como determinantes na vida das organizações. A racionalidade e o metabolismo das máquinas vêm ditando as regras quando se fala da construção dos modelos de gestão e das interfaces que, em última instância, representam o ser por trás da parafernália. O fato de 90% das pessoas usarem o sistema operacional Windows e a suíte Office não é mera casualidade. Isso faz com que as pessoas conduzam sua rotina de modo muito semelhante, seja numa igreja, num banco ou numa OSC.
O impacto desse fenômeno na construção e gestão da identidade é tremendo. Mais complicada ainda é a forma como a pessoas vêm se adaptando a essa racionalidade: de modo empírico, sem qualquer apoio ou capacitação. Como os ciclos tecnológicos são cada vez menores, o lapso entre potencial e efetivo uso das capacidades da máquina – e das pessoas – vai ficando maior.

Cabe aqui uma observação. Toda a evolução das interfaces gráficas e, sobretudo, das linguagens de programação se deu por causa de nossa dificuldade de abstrair o modo como o computador emula o raciocínio de quem o programa. A computação pessoal não teria sido capilarizada não fossem as interfaces gráficas. Um amigo me deu a melhor prova disso ao dizer que jamais usaria o computador se não fosse o Windows, já que tremia de medo toda vez que o computador abria no modo DOS e vinha “aquela escuridão”. O que me preocupa é que esses caras maravilhosos que nos tiram da escuridão acabam, por um outro lado, ditando o modo como devemos nos relacionar com o mundo.

Portal – Esta nova realidade fortalece ou pode fortalecer, por exemplo, a capacidade de produzir resultados das organizações públicas, privadas e da sociedade civil? Muda nossa vida como cidadãos, profissionais, consumidores etc.?

Mário Salimon – Eu diria que as pessoas usam os computadores como o cara que vai de Ferrari à padaria. Ainda há muita exibição. Sobra potência na máquina e falta juízo ao motorista. Mas a informática pode significar a diferença entre a vida e a morte em uma organização, seja ela de que setor for. Veja o caso do Governo Federal, que possui inúmeros focos de duplicidade de esforços e uma quase que total desarticulação dos bancos de informação e conhecimento. Qualquer movimento honesto de convergência resultaria em milhões de reais economizados e, em última essência, menos fome, que é o problema mais gritante com o qual vimos lidando.

Já as OSCs poderiam ter maior eficiência em seus processos de gestão, avaliação e comunicação ao usar das novas tecnologias. Vejo muitas organizações literalmente jogando dinheiro fora ao imprimir milhares de folders e boletins que quase ninguém lê, quando poderiam publicá-los na internet a uma fração do custo, poupando o meio ambiente inclusive. É claro que há produtos que carecem de uma certa concretute, mas estou certo de que são muito poucos.

Mas a maior vantagem do uso dessas tecnologias vale para todos: a possibilidade de conectar pessoas e suas idéias em rede, ampliando a participação nos processos de desenvolvimento.

Portal – Fala-se muito de rede, da necessidade de se formar rede em todos os setores. Em poucas palavras, o que é rede? O que rede tem a ver com a revolução tecnológica na comunicação e informação?

Mário Salimon – Pelo que tenho aprendido colaborando com a AED – Agência de Educação para o Desenvolvimento, falamos muito mais de um modo de encarar as coisas do que de uma coisa em si. Horizontalidade, interdependência e comunidade são elementos fundamentais para a existência de uma rede. A tecnologia provê o conduíte mas, por si só, não faz a rede.

Portal – Dá para citar exemplos de rede bem sucedidas?

Mário Salimon – Lamentavelmente, minha experiência próxima é de redes que não têm dado certo. Vejo com bons olhos uma rede que está se formando como resultado da implantação do DLIS (desenvolvimento local integrado e sustentável). As pessoas que participam desse programa cultivaram capital social e comunidade e, portanto, estão mais aptas a trabalhar bem em rede. Uma coisa é certa: uma rede não se faz por decreto ou por mera conveniência momentânea.

Portal – Qual é a situação brasileira neste contexto das novas tecnologias em comunicação e informação? Como participamos desta onda?

Mário Salimon – Há ilhas de excelência, mares de mediocridade e um oceano de excluídos. Acho ridículo, entretanto, discutir a ampliação do acesso às tecnologias de informação com as atuais políticas de telecomunicação. Se o objetivo da democratização da informática for o desenvolvimento sustentável e não meramente o acesso a novos canais de consumo, será preciso articular as pessoas em rede. Não pode haver articulação em rede sem conectividade e esse fator no Brasil é crítico. A qualidade e o preço dos serviços de que dispomos são ultrajantes mesmo para os que têm bom poder aquisitivo. Não haveria como acomodar conectividade no orçamento de uma família que mal pode se manter bem vestida e alimentada. A manutenção deste estado das coisas redundará, por razões óbvias, em mais desigualdade social.

Portal – No Terceiro Setor há quem diga que todos têm que se

informatizar e depressa, apesar do alto custo das máquinas, dos programas e da qualificação dos recursos humanos. Sem informática, não há salvação?

Mário Salimon – Não poderia fazer tal afirmação categórica. A verdade é que o que interessa não é quantas ou quão potentes máquinas tenho, mas sim que relação elas têm com os meus objetivos de impacto.

Portal – O que fazer, conforme título de ensaio seu publicado na revista ‘aminoá-c-idos’, “enquanto as máquinas não vêm”? Como garantir a comunicação e o desempenho das organizações, especialmente no segmento informal do nosso Terceiro Setor?

Mário Salimon – Tenho hoje uma visão bem clara a respeito disso. Sem uma boa política de informação e comunicação e sem uma visão clara da identidade da organização as máquinas serão apenas mais um ônus a gerenciar. Então, precisamos primeiramente ter motivos para investir nelas. Falando em linguagem técnica, a máquina é um insumo do qual nos valemos para atingir objetivos de produtos e atividades, que nos levarão a atingir um determinado objetivo de impacto. Este, por sua vez, é o norte de qualquer projeto e orientará a relação do gestor não só com o mundo das coisas, mas com o das pessoas e dos conceitos relacionados à vida da organização.

Existe um problema persistente no Teceiro Setor que é a insistência na filosofia segundo a qual “se a causa é nobre, qualquer resultado vale”. Não podemos seguir agindo dessa forma num ambiente de escassez de recursos para projetos, quase todos muito importantes. Tento sempre pensar que, no fim dessa linha abstrata e burocrática, existe um sofrimento muito concreto, alguém sentindo dor, fome ou sendo objeto de alguma injustiça – seja ela histórica ou pontual – inaceitável. Então, um terceiro e fundamental elemento seria um bom plano estratégico.

Portal – O senhor respondeu durante cinco anos pela comunicação do Comunidade Solidária, depois de ter exercido a mesma função no UNICEF. Como vê hoje esta trajetória?

Mário Salimon – Não seria o profissional que sou sem ter passado por essas instituições. O Unicef foi para mim como uma espiadela no futuro. Essa organização teve um papel fundamental na mobilização da sociedade brasileira e sempre investiu na formação de seu pessoal. Quando Agop Kayayan praticamente obrigou os gerentes de todas as áreas a fazer um curso de formulação de políticas sociais – do qual várias outras organizações participaram – houve certa comoção. Muita gente se perguntava se deveria mesmo deixar seus afazeres tão importantes para aprender planejamento. Isso era coisa de técnicos do Ipea e do BID. Não sei quanto aos outros, mas eu aprendi muito e aquele curso me qualificou para as empreitadas futuras. Por isso, elevei o Agop de chefe à condição de meu mestre.

A Comunidade Solidária foi outra experiência fundamental porque tínhamos ali a tela perfeita para pintar um novo modo de lidar com comunicação organizacional. A professora Ruth Cardoso enxerga muito adiante de seu tempo e nos deu carta branca para montar um núcleo enxuto e eficiente que viveu três anos com o dinheiro de um. O que fizemos ali não foi até hoje compreendido ou valorizado, mas serviu de plataforma para o sucesso de outros projetos que desenvovi no Serpro, na Agência de Educação para o Desenvolvimento e, mais recentemente, no Programa Alfabetização Solidária.

Portal – Qual é sua visão atual do Terceiro Setor, do novo espaço público que vem se criando? O que o senhor destacaria como conquistas? E como desafios?

Mário Salimon – As principais conquistas têm a ver com identidade. A renovação do marco legal promovida pelo Conselho da Comunidade Solidária deu nome e registro em cartório a uma criatura que havia atingido a maioridade sem que a sociedade a pudesse convocar condignamente. Sinto-me orgulhoso por ter participado desse processo. Agora, os desafios não são poucos. Ter registro e atingir maioridade legal não sana todos os problemas de uma criatura. Um primeiro problema a resolver tem a ver com a excessiva personalização dessas organizações. Elas nem sempre são muito democráticas. Têm donos. São como empresas na gestão e no modo como lidam com seus produtos e serviços. Até aí, zero a zero. Aprendi com o Augusto de Franco que a diferença entre as organizações está muito mais na racionalidade do que na nomenclatura. O que me preocupa de fato é a deificação desses donos e donas de oscs. Esse comportamento servil tem validado um modelo de gestão que me parece datado.

Agora entenda que a questão aqui não é a capacidade ou legitimidade dessas pessoas junto a seus interlocutores ou públicos-alvo, mas sim a repetição de certos modelos autocráticos de gestão, sobretudo de recursos humanos, que sempre criticamos nas organizações dos outros dois setores. Vemos ainda muitas pirâmides por aí.

Outro desafio relevante tem a ver com a apropriação do discurso e da prática do terceiro setor pelos outros dois, ao mesmo tempo em que o primeiro assimila funções e modo de funcionamento das contrapartes. Some-se a isso a preponderância dos modelos computacionais como determinantes na gestão e na formação de identidade e teremos, no futuro, uma linha muito tênue entre os setores.
Francamente, penso que essa distinção se tornará insignificante no momento em que cada setor tender à excelência. Um governo calcado em verdadeira participação não difere muito de uma sociedade civil organizada; um fórum de DLIS que tenha efetividade pode ser considerado um governo; uma osc que conduza bons projetos produtivos não deixa de ser uma empresa e por aí vamos. É uma questão de racionalidade e não de institucionalidade.

Portal – O Comunidade Solidária foi um complexo e abrangente esforço de se repensar a visão e a prática na questão social . Que legado, na sua opinião, o Comunidade Solidária deixou na gestão da doutora Ruth Cardoso?

Mário Salimon – O Conselho da Comunidade Solidária provou que vale a pena abandonar a filosofia do “se a causa é nobre…” por
alguma racionalidade de projeto. Os programas ou instâncias que ali se desenvolveram foram concebidos, implantados, avaliados e ampliados – quando conveniente, a partir de uma matriz conceitual muito bem discutida e aceita como uma espécie de tábua de Moisés. Os programas eram flexíveis, mas princípios como parceria, focalização, avaliação e replicação não poderiam ser postos de lado. Essa constância, mesmo quando as críticas vinham de todos os lados, fortaleceu o grupo e validou a estratégia hoje internacionalmente reconhecida.

Portal – Você acompanhou o Programa Voluntários e a eclosão do voluntariado na sociedade brasileira, especialmente em 2001, o Ano Internacional do Voluntário. Qual sua visão deste processo?

Mário Salimon – O Programa Voluntários seria, na minha opinião, o mais eloqüente exemplo resultante dessa matriz conceitual de que falamos. Conseguiu, com poucos recursos e de forma muito bem articulada, mobilizar um grupo muito relevante de atores. O PV nasceu, acumulou e empacotou conhecimento específico, cuidou de redistribuí-lo, promoveu mudança cultural e foi gradulamente se desinstitucionalizando em favor dos centros cuja criação fomentou. Fiquei triste com esse encolhimento do programa, talvez por gostar muito dele e das pessoas que o fizeram, mas tenho que admitir a consistência desse processo com o discurso pregado pelo Conselho da Comunidade Solidária. O Ano Internacional do Voluntário foi relevante para o movimento nacional mas, lamentavelmente, coincidiu com o ano em que o PV encolheu, de modo que os verdadeiros articuladores do processo não tiveram o protagonismo devidamente reconhecido.

Portal – Hoje você participa da Rede de Criação em TICs da Agência de Educação para o Desenvolvimento – AED, em Brasília. O que é AED? O que faz esta rede?

Mário Salimon – Embora tenha identidade muito forte, a AED é uma não-instituição no sentido em que não tem personalidade jurídica própria. É um programa público, não governamental que vem oferecendo à sociedade, de forma muito focalizada e articulada, um conjunto relevante de conhecimentos necessários para o desenvolvimento. É um bom exemplo de rede porque ali mais vale o modo como lidamos com as questões do que as questões em si. Depois de algum tempo na AED, sentimos que aprendemos muito e já não sabemos se somos funcionários, fornecedores ou patrocinadores. O certo é
que fica difícil não fazer parte daquela experiência. No meu caso, tive a chance de trabalhar com eles na reformulação dos sistemas de comunicação e relação com clientes. Propus à AED uma mudança bastante radical de plataforma computacional e a internalização da produção e do gerenciamento de conteúdos para internet. Eles foram corajosos ao aceitar porque não se tratava de uma estratégia muito comum no mercado. A impressão que temos hoje é de que os projetos deles seriam quase inviáveis se não tivessem dado esse salto tecnológico, se não tivessem lutado por mudança cultural quando se trata de lidar com tecnologia. Esta hoje é vista como um problema de todos e não só da área afim. Isso faz muita diferença.

Portal – Dadas as Tecnologias de Comunicação e Informação, que desafios se apresentam ao cidadão comum e as organizações da sociedade civil no esforço pela construção de um país melhor?

Mário Salimon – Seja você um consultor de TI ou um coveiro, a importância da pessoa e o desafio são da mesma monta: encontrar o seu lugar no processo político, entender qual seu papel no grande projeto. O problema é que chegamos a um ponto de complexidade, com tanta gente e tantas organizações, que fica difícil, se não impossível, ter uma planilha com o papel e as tarefas de cada um. Daí a importância de se começar pelo bom-senso e por algum tipo de participação no âmbito local. Minha mãe sempre disse que eu teria mais chances de ajudar o mundo começando pela empregada. Hoje vejo que tenho ser mais radical e começar ajudando a mim mesmo porque há sempre muito o que melhorar, sempre muito mais para se fazer. De certo modo é isso que me anima a levantar da cama todos dias.

 

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