O que seria de mim sem essa ferramenta espetacular chamada de “óculos”?

Foto de Adriano Salimon

Foto de Adriano Salimon

Faz mais de 20 anos, vi, em uma daquelas tevês pequenas e portáteis, um filme cujo começo mexeu com minha cabeça. Não adianta me perguntar qualquer outro detalhe senão os que lhes contarei, pois não me ocorre mesmo muita coisa. Mas lembro-me, claramente, de como fiquei irritado com o modo como a imagem tardava a entrar em foco, tendo eu que “ler” o contexto pelos sons e silhuetas. Era uma paisagem sonora modorrenta e havia o cacarejar de galinhas e ranger de madeira, de peças de metal. A câmera era subjetiva e uma voz, vinda de longe, saudava o protagonista.

Com um doce farfalhar de folhas, o estranho se aproximava e trazia algo para perto, em rota de colisão com a lente ou o rosto do sujeito. De um golpe, tudo se via com foco perfeito e um rosto sorridente enchia a tela, logo dando vez a uma panorâmica de uma fazenda, com seus objetos e paisagens. Era um par de óculos que o visitante havia trazido. Mais que isso, era o mundo, ou uma camada muito relevante dele, que era devolvido ao protagonista do filme.

Se isso tudo que narrei resistiria a uma acareação com o tal filme – e eu não me importaria de estar errado -, não posso garantir. Posso muito bem ter reconstruído, subjetivamente, grande parte dessa narrativa com o passar dos anos. Mas o fato é que essa lembrança sempre me faz ser grato à ciência e à medicina, pois não conseguiria ler, escrever ou fazer cinema não fosse pelos avanços da ótica. Vejam esta foto, feita por meu filho Luís Adriano, e entendam a complexidade da situação.

Sensação contrária e desesperadora causa o episódio Time Enough at Last, da série Twilight Zone, em que o caixa de banco Henry Bemes se depara com o desespero de perder seus óculos em contexto que não contarei para não se chamado de desmancha prazeres. Foram alguns dias de agonia pensando no destino do pobre Bemes, pois não sei o que seria de mim sem minhas leituras tanto diurnas como noturnas.

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