Ideologia gerencialista e subjetividade do trabalhador no terceiro setor

As revistas científicas são um exemplo gritante do regime de escassez artificial predominante em nossa sociedade. A internet é praticamente infinita e imediata, mas veremos que um artigo não poderá exceder um certo número de páginas e apenas um seleto fruto de filtragens sucessivas chegará à publicação, geralmente tardia e muitas vezes alçada a condição primaz para que o cientista ocupe certas posições no mercado.

Justificativas para os “açudes” abundam, mas nem os grandes nomes da ciência concordam, hoje, com a quantofrenia que orienta a produção científica. Disse Peter Higgs, ganhador de um Nobel, que, com os critérios de hoje, nem ele conseguiria manter um emprego na academia. Por isso, vejo com bons olhos as investigações de meus amigos Augusto de Franco e Nilton Lessa sobre conceitos e práticas de “ciência aberta”.

De qualquer modo, tenho um pé no velho mundo e me meti a fazer mestrado e doutorado, ainda que filiado a correntes mais qualitativistas e críticas como a sociologia clínica e a psicodinâmica do trabalho. Estas são mais ligadas à filosofia, à teoria psicanalítica e levam muito em conta a complexidade, a alteridade e os devires do sujeito. Pretendo introduzir em minha tese o que venho aprendendo com os estudos e prática sobre redes e democracia. Estou muito feliz com essa perspectiva e disposto a enfrentar os desafios que, certamente, surgirão na negociação do escopo do estudo.

Aqui vai um artigo que escrevi, em dezembro em 2011, por ocasião da defesa de uma dissertação em estudos organizacionais, publicada há poucos dias na Revista de Administração da USP. Trata-se de um estudo de caso sobre gerencialismo em reestruturações administrativas feitas em organizações ambientalistas.  Os resultados mostram que a ideologia gerencialista foi, pelo menos nos casos estudados, assimilada pelo trabalhador, que as relações de trabalho estão se precarizando em nome da rentabilidade financeira dos investimentos na organização, que as estratégias de defesa e adesão implicam sofrimento subjetivo e que o terceiro setor se distancia crescentemente de sua identidade histórica de esfera de agenciamento marcada por uma racionalidade substantiva.

Como diria o Rudolfo Lago, muito me horaria sua leitura deste trabalho que é minha singela contribuição a um campo no qual tenho trabalhado, com afinco e seriedade, há cerca de 20 anos.

http://www.rausp.usp.br

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