É mais difícil encontrar o silêncio que o barulho

Screen Shot 2015-05-19 at 08.52.39Minha posição, calcada em 30 anos de experiência como músico, tem sido impopular junto aos colegas de profissão, pois não se alinha totalmente com a expectativa deles de abertura total de espaços públicos para a música ao vivo. Antes de ser músico, sou cidadão, condição que entendo estar acima de interesses corporativos. É com essa visão que defino minha posição neste caso.

A amplificação mecânica é uma forma não natural de geração de som e, por tanto, seu resultado não deveria ser imposto, como regra, a uma vizinhança. Por muito tempo, pensei que o bom senso (ou senso comum) pudesse gerar um acordo razoável nesta contenda, mas vejo que a maioria das pessoas se tornou insensível à importância do silêncio, que é muito mais difícil de se obter, em uma metrópole, que o barulho.

A vida tem lá seus ruídos, mas há que se acordar limites para os que são gerados artificial e propositalmente, posto que há exageros – além de muito mau gosto – no exercício cotidiano da música ao vivo, que se tornou, nas últimas duas décadas, commodity nos bares da cidade. O tinitus com o qual temos que conviver, eu e vários outros colegas de profissão, é testemunha do quadro que relato. Também o são as frequentes queixas de moradores de áreas residenciais adjacentes a comércios em que funcionam estabelecimentos que comportam shows, sobretudo, noturnos.

Entretanto, nem todas as apresentações chegam a incomodar e, de fato, há exageros também na reação por parte das autoridades. A nova legislação serve de mote a ações persecutórias e multas que não redundam em benefício para qualquer parte que não o erário local, hoje dedicado quase que integralmente a satisfazer à FIFA. Um movimento forte pede revisão da lei e, em termos gerais, vejo-o com bons olhos, sobretudo pelo potencial de gerar diálogos intra e intercomunidades e segmentos do mercado cultural.

Mas o que me parece mesmo correto é proibir, como regra, qualquer ruído evitável que seja capaz de adentrar o espaço privado, seja a que horas for.
Para mim, o espaço privado é um tela em branco, que desejo poder pintar como quiser. Aceitar como natural (normal já é) a imposição de ruído vindo do espaço público (ou de outro privado) seria ter que começar a pintura já com a tela marcada por um fundo cor de burro quando foge. Isso não faz o menor sentido com a tecnologia que temos hoje. Se uma pessoa gosta de som alto, que use fones de ouvido. Se um coletivo quer curtir conjuntamente um som alto, que o faça em espaço privado com o devido tratamento acústico.

Acima, falei da regra. A exceção – música suave ao cair da tarde, um concerto dominical, um bloco carnavalesco de bairro, por exemplo – deveria ser negociada localmente com a comunidade, conforme o perfil desta e dentro de parâmetros internacionalmente aceitos sobre o que seria salutar, democrático e construtivo. Antes de tudo, padrões que sejam constitucionais.

Seria terrível uma cidade sem cultura, sem arte e sem vida. Mas a ocupação do espaço público deve levar em conta a necessidade incontestável de manutenção de um mínimo de espaço para o âmbito privado e a vida interior das pessoas. Vemos, ao viajar para países menos incivilizados, que a música ao vivo acontece mais cedo e em locais com a devida preparação acústica. Por que não podemos aspirar a tais condições, bem mais razoáveis que o “tudo ou nada” hoje em questão?

 

Originalmente publicada em fevereiro de 2014 em http://www.culturaalternativa.com.br/

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