A banalização da injustiça

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Um livro que ajuda muito a entender o Brasil político de hoje – na verdade, bem mais do que isso –  é A banalização da injustiça social*, de Christophe Dejours, um grande nome da psicodinâmica do trabalho. Basta fazer uma analogia, com algumas simples transposições, e o raciocínio abaixo, pensado para empresas gerencialistas, explica o que vejo acontecer nas conversações que mantenho com amigos e amigas:

  1. Uma racionalidade predominantemente calculativa orienta as empresas a abandonar princípios éticos em favor da melhor relação custo-benefício possível. Naturaliza-se, no curso do processo, um discurso de defesa do realismo econômico.
  2. A colocação em prática desse discurso gera precarização nas relações, escassez artificial, concentração de poder e outros capitais, bem como violências diversas, tais como brutalização das relações de trabalho, demissões, escassez artificial de recursos – injustiça, enfim.
  3. Esse estado de coisas pede ação comunicacional  que mantenha a adesão das pessoas, mesmo quando tudo mostra que deveriam rechaçar tais comportamentos. Essa comunicação é baseada em mentiras.
  4. A comunicação interna deve também apagar vestígios do mal, trabalhando uma fantasmática comum que valorize heróis, o valor da missão organizacional, a grandeza das causas sempre defendidas, a despeito do comportamento paradoxalmente vil vivido no dia-a-dia.
  5. Embedidas pelo mesmo discurso do realismo econômico, as pessoas se engajam em mecanismos coletivos e individuais de defesa, a bem de poderem lidar com o sofrimento causado pelo conflito intrapsíquico decorrente da gestão e do discurso paradoxantes.
  6. Do ponto de vista coletivo, ocorre a defesa de realismo econômico, por meio do qual se compartilha a visão de que as coisas são assim mesmo, é preciso colocar o pão na mesa e não haveria saída que não as apresentadas pelo status quo, identificado em termos de sistema psicológico, na sociedade hipermoderna como uma identidade híbrida, com traços tanto maternais como paternais (nutre, mas castra) . Outra defesa coletiva é o cinismo viril, que viabiliza um estado em que as diversas violências são perpetradas, por homens e mulheres igualmente, sem dó e em um caráter formativo que fortalece os mais fortes, corajosos e audaciosos; aqueles que executam com precisão, o clean kill.
  7. Em termos de defesas individuais – e, aqui, deixo Dejours e me remeto à teoria Freudiana pelo corte de Eugène Enriquez, temos inicialmente a negação, que é autoexplicativa. Depois, o recalque, processo por meio do qual conteúdos que vão contra os desejos do sujeito são contra-investidos, encapsulados e escondidos em algum canto escuro da mente. Como desdobramento eventual deste, tem-se a clivagem, uma bifurcação que começa com o recalque do lado ruim de algum conteúdo, de modo que a vida possa seguir com base no que existe de bom no sistema.
  8. E, por fim, ainda que haja mais tipos de defesas na literatura, destaco as racionalizações, que são esforços de se encaixar o que não faz sentido em nosso gabarito de realidade aceitável.  O principal tipo de racionalização que vejo nas conversas políticas é a teleologização, que se dá quando desenvolvemos raciocínios, muitas vezes falaciosos, de causa e efeito e caráter teórico (orientados a sistemas explicativos) que possam justificar o inaceitável, e fazer com que este se torne algo viável numa determinada circunstância. Um exemplo de teleologia, muito utilizado presentemente, é aquele construído com o objetivo de justificar os erros de um político por meio da afirmação de que outros os cometeram, igualmente, no passado.

Enfim, o que vemos é uma tentativa inútil e sofrida de se viabilizar o país por meio de um imaginário enganador e de formações ideológico-discursivas que não costumam ser muito mais que  mecanismos de defesa para justificar a banalização da injustiça e de ações comprovadamente criminosas. Não há como chegar a bom porto desta forma, isso posso lhes garantir, pois toda clivagem tem um fim, e este chega quando algum choque inviabiliza a manutenção dos recalques, obrigando o sujeito – ou uma sociedade – a confrontar seus conflitos a partir de suas feições mais indesejáveis.

*EDITORA FGV,  2007

Fotografia: https://scottesavage.files.wordpress.com/2011/11/hiding.jpg

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